segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Mongo

O menino preparava toda uma civilização de areia. O rei desta civilização seria um siri. Seu nome seria Mongo. Pois se este menino vivesse em seu próprio mundo, haveria de ser chamado de Mongo, o terrível. Mal tinha cinco anos, a criança era um tirano. Um genial tirano, inclusive. Construiu uma forte parede de areia, que assim impede as ondas fortes de destruírem seu reino de areia. A verdade é que de tempos em temos uma criança, aos cinco anos, tem um surto tirânico, exatamente numa quinta feira de sol, quando os pais, vai Deus saber, decidem ir a praia. Esta criança, que pode ter sido eu ou você, começa a construir um império maligno de areia. Geralmente o surto psicótico megalomaníaco infantil deixa de existir no momento em que uma onda faz o seu trabalho. Caso não, o menino trará desgraças para o mundo. Provavelmente Mongo conseguirá.

domingo, 29 de agosto de 2010

Como é mesmo que minha mãe dizia? Quem não é visto não é lembrado. Longe dos olhos, longe do coração. Pois é. Acho que ela errou.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O baile

Toda máscara tem duas aberturas na área dos olhos, para que, mesmo quando privamos o mundo de ver nossa verdadeira face, consigamos, mesmo assim, enxergar. Com a idade, as pessoas vão, aos poucos descobrindo que é tão cômodo, é tão mais seguro esconder a fisionomia, que passam a achar que não vale mesmo a pena presentear o mundo com transparência. No entanto, são justamente os olhos que desmentem as máscaras. Eles estão e estarão para sempre lá, descobertos. E eu, da mesma forma que você, mesmo vivendo num interminável baile de máscaras, já aprendi a olhar através da porcelana, a fitar os olhos tristes que estão logo acima do sorriso radiante. No entanto, o que eu enxergava era tão bonito que me parecia apenas a mais bela máscara do baile, uma plástica distração que me transformaria em joguete, hipnotizado por aquela face que ostentava dolorosa beleza. Até hoje apalpo teu rosto procurando emendas, desníveis, vestígios de cola ou encaixes bem-feitos, sem sucesso algum. Me deixei ser levado por tamanho encanto, e sigo flutuando em simples nuances de voz, sussuros inesperados e intrincados escritos. Abriu-se uma roda. Somos o par que dança alegremente entre os mascarados, sentindo na pele do rosto a brisa de lança-perfume que faz parar o tempo, devidamente despidos das máscaras.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Revendo conceitos


Hoje eu resolvi que seria um dia diferente. Resolvi beber o café que eu nunca bebo e usar aquela caneca que nunca tive coragem. Criei coragem e decidi também acordar bem cedo, pra não perder aquele tempo que eu perdia só dormindo. Resolvi também usar aquela camisola bonita, sabe, que eu nunca usei por ter muitas opções. Mas hoje optei por ela. Resolvi pintar minhas unhas com uma cor de esmalte diferente, pra ver se consigo dar um ar diferente a quem me olha também. Resolvi tirar a maquiagem mesmo chegando em casa bêbada, e resolvi beber um pouco menos também. Resolvi ouvir músicas novas que nunca dei atenção e sempre dizia que não gostava. Resolvi também ligar pra alguém que não falo a muito tempo só pra perguntar como as coisas estão e resolvi repensar meus conceitos. Mas apesar disso tudo, ainda continuo pensando em você.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

If I ever leave this world alive.


Vontade de escrever uma carta. De enviar uma carta. De selar uma carta. De ir junto com a carta.

sábado, 7 de agosto de 2010

Dercy nossa, que estais no céu.

A idéia que eu fazia de Purgatório era diferente.
Imaginava um tipo grandioso de quiosque lá em cima no céu, com ar de qualidade, bastante respirável e cristalino. Uma luz diáfana como as que se vê com facilidade em ilustrações bíblicas perfuraria com suavidade as nuvens de algodão divinas.
À frente desse quiosque magistral, mais precisamente em seu portal, haveriam imponentes arcanjos à espera daqueles que chegassem de suas vidas terrenas.
Ao fundo, num trono, o Poliarca estaria pronto para ouvir - com compaixão cristã - a trajetória de cada vivente.
Mas lamentavelmente tive meu passamento, fui para lá e não era nada disso.
Mal tive tempo de perceber que já era e estava num lugar penumbroso, úmido e com cheiro de desinfetante de eucalipto barato, desses usados em banheiros públicos.
Os candidatos a entrar no Firmamento, entre eles eu, estavam todos espremidos numa salinha suja e tão escura que não se conseguiria reconhecer o Jô Soares pelado, lambrecado de marshmallow, fumando um Cohiba.
Havia um silêncio pesado, que logo foi interrompido por uma incômoda microfonia. Uma voz de homem, com forte sotaque hebraico, disse num português carregado:
- Faz favor, a próximo!
Ouvi um resmungo de enfado e, em seguida, ruídos de saltos altos femininos ecoarem pela sala: toc, toc, toc, toc.
Era alguém indo para “patíbulo”.
Apurei ao máximo a audição. A voz masculina vinda do sistema de som aumentou de volume se expandindo para todas as alas fétidas do Purgatório. Era como se todos precisassem escutar a entrevista final uns dos outros.
- Nome? - Dercy. - Profissão senhora? - Puta. - Senhora ter certeza que profissão senhora essa? - Porra, e tu acha que tem diferença entre uma atriz e uma puta? - Descreve vida senhora no Terra, faz favor. - Uma merda. - Ficha senhora diz: senhora mulher famosa. - Famosa? Ai meu caralhinho! Adianta ser famosa e só tomar na tarraqüeta? - “Tarraqüeta”, faz favor, explica melhor palavra? - Cu. Que adianta ser famosa e só tomar no meio do cu? - Por que senhora “tomar em seu tarraqüeta” assim, tempo todo? - Porque fui burra pra caralho, meu filho. Sai da minha cidadezinha no interior, me meti a fazer teatro de revista e só conheci homem filho da puta na minha vida. Só bundalelê, seu padre. - Eu não ser padre, senhora. Eu ser Poliarca. - Poliarca, patriarca, pederasta, eu sei lá o que tu é. Eu sei é que eu tô com uma fome fodida. Não tem nada pra comer nessa boceta não? - Senhora, faz favor... - ...é só um bando de nêgo fantasiado de franga olhando pra gente com cara de cu, parece que alguém enrabou a mãe deles. Que porra de lugar escroto é esse aqui, seu Pederasta! - Senhora estar na meio caminho para Céu ou Inferno. Aqui não ter nada para senhora comer. - Puta que pariu, não tem nem uma carninha batida com quiabo nessa porra? - Lamenta dizer que não, senhora. - Olha aqui, seu Pederasta, se isso aqui for uma pegadinha da Globo, rescindo meu contrato na hora, tá sabendo? Aí eu quero ver essas merdas dos programas de vocês darem audiência sem meus xingamentos! Se eu não comer em cinco minutos, vou botar pra foder nesse rendez-vous de viado! - Mas senhora não entende? Senhora morreu! - Quem morreu foi você, seu santo do caralho oco! Eu tenho 100 anos e um puta público que me adora, entendeu bostalhão? Me bota num palco aqui e tu vai ver se eu não faço esses teus anjos baitolas rirem até estourarem as pregas do rabo. Vai, anda!
Nesse momento, houve uma grande e aguda microfonia. O sistema de som tinha sido cortado. Contudo, passados alguns momentos, foi novamente religado. Depois de um pigarro e uma tosse fraca vinda das caixas, pude ouvir a voz com sotaque europeu oriental mais uma vez:
- A próximo, faz favor.
Agora era a minha vez.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

- "Tenta sim. Vai ficar lindo." Foi assim que decidi, por livre e espontânea pressão de amigas, me render à depilação na virilha. Falaram que eu ia me sentir dez quilos mais leve. Mas acho que pentelho não pesa tanto assim. Disseram que meu namorado ia amar, que eu nunca mais ia querer outra coisa. Eu imaginava que ia doer, porque elas ao menos me avisaram que isso aconteceria. Mas não esperava que por trás disso, e bota por trás nisso, havia toda uma indústria pornô-ginecológica-estética. - "Oi, queria marcar depilação com a Penélope. - "Vai depilar o quê?" - "Virilha." - "Normal ou cavada?" Parei aí. Eu lá sabia o que seria uma virilha cavada. Mas já que era pra fazer, quis fazer direito. - "Cavada mesmo." - "Amanhã, às... deixa eu ver...13h?" - "Ok. Marcado." Chegou o dia em que perderia dez quilos. Almocei coisas leves, porque sabia lá o que me esperava, coloquei roupas bonitas, assim, pra ficar chique. Escolhi uma calcinha apresentável. E lá fui. Assim que cheguei, Penélope estava esperando. Moça alta, mulata, bonitona. Oba, vou ficar que nem ela, legal. Pediu que eu a seguisse até o local onde o ritual seria realizado. Saímos da sala de espera e logo entrei num longo corredor. De um lado a parede e do outro, várias cortinas brancas. Por trás delas ouvia gemidos, gritos, conversas. Uma mistura de Calígula com O Albergue. Já senti um frio na barriga ali mesmo, sem desabotoar nem um botão. Eis que chegamos ao nosso cantinho: uma maca, cercada de cortinas. - "Querida, pode deitar." Tirei a calça e, timidamente, fiquei lá estirada de calcinha na maca. Mas a Penélope mal olhou pra mim. Virou de costas e ficou de frente pra uma mesinha. Ali estavam os aparelhos de tortura. Vi coisas estranhas. Uma panela, uma máquina de cortar cabelo, uma pinça. Meu Deus , era O Albergue mesmo. De repente ela vem com um barbante na mão. Fingi que era natural e sabia o que ela faria com aquilo, mas fiquei surpresa quando ela passou a cordinha pelas laterais da calcinha e a amarrou bem forte. - "Quer bem cavada?" - "...é ... é, isso." Penélope então deixou a calcinha tampando apenas uma fina faixa da Abigail, nome carinhoso de meu órgão, esqueci de apresentar antes. - "Os pêlos estão altos demais. Vou cortar um pouco senão vai doer mais ainda. - "Ah, sim, claro. Claro nada, não entendia porra nenhuma do que ela fazia. Mas confiei. De repente, ela volta da mesinha de tortura com uma espátula melada de um líquido viscoso e quente (via pela fumaça). - "Pode abrir as pernas." - "Assim?" - "Não, querida. Que nem borboleta, sabe? Dobra os joelhos e depois joga cada perna pra um lado." - "Arreganhada, né?" Ela riu. Que situação. E então, Pê passou a primeira camada de cera quente em minha virilha virgem. Gostoso, quentinho, agradável. Até a hora de puxar. Foi rápido e fatal. Achei que toda a pele de meu corpo tivesse saído, que apenas minha ossada havia sobrado na maca. Não tive coragem de olhar. Achei que havia sangue jorrando até o teto. Até procurei minha bolsa com os olhos, já cogitando a possibilidade de ligar para o Samu. Tudo isso buscando me concentrar em minha expressão, para fingir que era tudo supernatural. Penélope perguntou se estava tudo bem quando me notou roxa. Eu havia esquecido de respirar. Tinha medo de que doesse mais. - "Tudo ótimo. E você?" Ela riu de novo como quem pensa "que garota estranha". Mas deve ter aprendido a ser simpática para manter clientes. O processo medieval continuou. A cada puxada eu tinha vontade de espancar Penélope. Lembrava de minhas amigas recomendando a depilação e imaginava que era tudo uma grande sacanagem, só pra me fazer sofrer. Todas recomendam a todos porque se cansam de sofrer sozinhas. - "Quer que tire dos lábios?" - "Não, eu quero só virilha, bigode não." - "Não, querida, os lábios dela aqui ó." Não, não, pára tudo. Depilar os tais grandes lábios ? Putz, que idéia. Mas topei. Quem está na maca tem que se fuder mesmo. - "Ah, arranca aí. Faz isso valer a pena, por favor." Não bastasse minha condição, a depiladora do lado invade o cafofinho de Penélope e dá uma conferida na Abigail. - "Olha, tá ficando linda essa depilação." - "Menina, mas tá cheio de encravado aqui. Olha de perto." Se tivesse sobrado algum pentelhinho, ele teria balançado com a respiração das duas. Estavam bem perto dali. Cerrei os olhos e pedi que fosse um pesadelo. - "Me leva daqui, Deus, me teletransporte". - Só voltei à terra quando entre uns blábláblás ouvi a palavra pinça. - "Vou dar uma pinçada aqui porque ficaram um pelinhos, tá?" - "Pode pinçar, tá tudo dormente mesmo, tô sentindo nada." Estava enganada. Senti cada picadinha daquela pinça filha da puta arrancar cabelinhos resistentes da pele já dolorida. E quis matá-la. Mas mal sabia que o motivo para isso ainda estava por vir. - "Vamos ficar de lado agora?" - "Hein?" - "Deitar de lado pra fazer a parte cavada." Pior não podia ficar. Obedeci à Penélope. Deitei de ladinho e fiquei esperando novas ordens. - "Segura sua bunda aqui?" - "Hein?" - "Essa banda aqui de cima, puxa ela pra afastar da outra banda." Tive vontade de chorar. Eu não podia ver o que Pê via. Mas ela estava de cara para ele, o olho que nada vê... Quantos haviam visto, à luz do dia, aquela cena? Nem minha ginecologista. Quis chorar, gritar, peidar na cara dela, como se pudesse envenená-la. Fiquei pensando nela acordando à noite com um pesadelo. O marido perguntaria: - "Tudo bem, Pê?" - "Sim... sonhei de novo com o fiofó de uma cliente." Mas de repente fui novamente trazida para a realidade. Senti o aconchego falso da cera quente besuntando meu twin peaks. Não sabia se ficava com mais medo da puxada ou com vergonha da situação. Sei que ela deve ver mil cús por dia. Aliás, isso até aliviava minha situação. Por que ela lembraria justamente do meu entre tantos? E aí me veio o pensamento: peraí, mas tem cabelo lá? Fui impedida de desfiar o questionamento. Pê puxou a cera. Achei que a bunda tivesse ido toda embora. Num puxão só, Pê arrancou qualquer coisa que tivesse ali. Com certeza não havia nem uma preguinha pra contar a história mais. Mordia o travesseiro e grunhia ao mesmo tempo. Sons guturais, xingamentos, preces, tudo junto. - "Vira agora do outro lado." Porra.. por que não arrancou tudo de uma vez? Virei e segurei novamente a bandinha. E então, piora. A bruaca da salinha do lado novamente abre a cortina. - Penélope, empresta um chumaço de algodão? Apenas uma lágrima solitária escorreu de meus olhos. Era dor demais, vergonha demais. Aquilo não fazia sentido. Estava me depilando pra quem? Ninguém ia ver o tobinha tão de perto daquele jeito. Só mesmo Penélope. E agora a vizinha inconveniente. - "Terminamos. Pode virar que vou passar maquininha." - "Máquina de quê?!" - "Pra deixar ela com o pêlo baixinho, que nem campo de futebol." - "Dói?" - "Dói nada." - "Tá, passa essa merda..." - "Baixa a calcinha, por favor." Foram dois segundos de choque extremo. Baixe a calcinha!!!...como alguém fala isso sem antes pegar no peitinho? Mas o choque foi substituído por uma total redenção. Ela viu tudo, da perereca ao cú. O que seria baixar a calcinha? E essa parte não doeu mesmo, foi até bem agradável. " - Prontinha. Posso passar um talco?" - "Pode, vai lá, deixa a bicha grisalha." - "Tá linda! Pode namorar muito agora." Namorar...namorar... eu estava com sede de vingança. Admito que o resultado é bonito, lisinho, sedoso . Mas doía e incomodava demais. Queria matar minhas amigas. Queria virar feminista, morrer peluda, protestar contra isso. Queria fazer passeatas, criar uma lei antidepilação cavada.

Plágio.

Nunca tinha parado para pensar, até minutos atrás. O mundo é um plágio. Dá-se o exemplo de um filme romântico, mesmo que a história já tenha acontecido em outro filme, você o assiste, porque os atores são outros, e interpretam de outra maneira. Seria então um caso subliminar de substituição ou entretenimento passivo? A vida é mais ou menos assim, alguns casos se repetem mas com pessoas distintas e voltamos a viver aquilo que até mesmo um dia nos machucou e sabemos que vai machucar de novo. A gente sabe, mas a gente se engana, essa é a verdade que ninguém quer perceber.