quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Duas décadas.

Eu e Lucas nos conhecemos em Bogotá, em 1974. Ele estava em uma clínica de reabilitação para dependentes sexuais/fãs de Beatles/bebedores de Heineken e eu estava lá apenas para passar o final de semana porque eu acho clínicas de reabilitação divertidas. Em duas semanas internados em quartos contíguos, nós, apenas nos comunicando através do vão da porta, conseguimos descobrir a cura para o câncer, a Aids, o Ebóla, e em parceria com Nelson Motta, compusemos “A Cura”, para o Lulu Santos. Foi nesse ponto que os médicos do local acharam que nossos casos eram graves demais (afinal, músicas para o Lulu Santos…meu Deus…) e nos deram alta, nos enviando para Malta, a ilha. De onde nós rapidamente voltamos, porque não tinha nada de legal por lá.
Foi uma imensa surpresa então quando nos reencontramos no Colégio Militar, em 3657 (pelo calendário judaico). Lá nos tornamos novamente amigos, fundamos um jornal, fomos punidos por termos fundado um jornal, continuamos o jornal mesmo assim, e quando todos já tinham se acostumado nós paramos com o jornal, apenas porque somos babacas. Foi graças à Lucas que conheci o mundo, a dura e triste realidade adolescente, onde desenvolvi uma dupla personalidade, engordei sei lá quantos quilos, tomei os maiores porres da minha vida e descobri que “não sou praieiro, tô solteiro, funileiro e vou pular no cesto de lixo”.
Lucas também estava próximo quando apanhei de vergonha naquela maldita festa de 15 anos onde um amigo nosso foi príncipe, quando meu primeiro namoro terminou, quando meus pais entraram em crise, quando eu estava jogado em casa sem dinheiro, quando meu avô morreu e naquela noite em que eu quase entrei em coma alcoólico por causa de vodca. Ou seja, apesar de não me dar sorte, Lucas é alguém com quem eu posso contar.
Durante todos esses anos Lucas foi meu amigo, irmão, pretendente, editor e comentarista. Ainda que eu não tenha publicado nada… E em quatro anos de amizade eu posso dizer, com convicção, que Lucas só vacilou comigo uma vez. E sempre se pode dizer em defesa dele que minha acusação não tem base em provas, deixo estar.
É por essas e outras razões que gostaria de usar esse espaço para desejar as mais sinceras felicidades ao Lucas, assim como os meus parabéns.
E não há nada melhor para fazer no aniversário desse grande parceiro do que compartilhar com vocês algumas das grandes lições e orientações de vida que eu recebi dele durante esses curtos anos de amizade.
Não existe mulher impossível, existe cantada ruim” – Com essa frase Lucas tenta nos demonstrar que todo e qualquer objetivo é atingível se abordado da forma certa e com o nível de esforço necessário. Mais do que dizer que sim, dá pra ficar com a mulher que você quiser se você souber atingir o nível de exigência dela (algumas podem exigir que você nasça de novo). A mensagem central é de que tudo é possível, sonhos existem para ser sonhados e as únicas coisas que limitam um homem são os limites que ele mesmo se impõe. E claro, dá pra ficar com qualquer mulher se você souber chegar do jeito certo. Quer dizer, ao menos pro Lucas dá, eu sinceramente nunca acreditei nesse papo.
“Você nunca está velho demais para o carnaval de Recife” – Mais uma vez Lucas usa de uma metáfora simples para nos dizer que nunca é tarde demais para nada. Não, com isso ele evidentemente não quis dizer apenas que nós não devemos nos sentir ridículos por estarmos aos 30 anos sentados numa praça aproveitando um carnaval em que todo mundo parece ter 19, que deveríamos repensar nosso conceito de maturidade ou mesmo de incentivarmos amigos a abordar mulheres enquanto dança com uma latinha de cerveja na cabeça. Não, nada disso. Lucas quer nos mostrar que a juventude de que precisamos existe em nossos corações, em nossas mentes e isso não tem nenhuma relação com o fato de que a viagem para Recife é mais barata e por isso sobra mais dinheiro pra bebida.
“Ei, esse whisky é legítimo, estou te falando” – Com esta declaração, dada diante da garrafa de uma bebida de cor âmbar em cujo rótulo se lia “Hecho en La Estrada del camiño de Asunción, Escotchia”, Lucas nos demonstra que acima de tudo é preciso acreditar. Acreditar que a Escócia agora fica ali perto do Uruguai, acreditar que aquela festa de debutante ia mesmo ser legal, acreditar que nunca iríamos querer dar cabo da vida aos dez anos, acreditar que siamesas albinas são atraentes. Sim, Lucas tal qual um Obama de outra cor, outro peso, outra religião, outra nacionalidade e… bem, tal qual um Obama que não se parece em nada com o Obama, diz que acima de tudo devemos acreditar.
“Qualquer coisa se torna comestível com a quantidade certa de parmesão ” – Com essa frase Lucas nos mostra que não sabe cozinhar. E que consegue dizer coisas muito esquisitonas de vez em quando, se você for parar pra pensar…

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A nossa auto-imagem, ou seja, a forma como vemos a nós mesmos, é um dos aspectos mais complexos e fragmentados da nossa mente. Assim como uma espécie de Capitão Planeta (só que sem o garotinho segurando o macaco) ela é composta de vários fatores que vão desde o que nós somos até o que nós pensamos que somos passando pelo que nós pensamos que os outros pensam que nós somos, o que nós gostaríamos que os outros pensassem que nós somos, e mais inúmeros fatores e/ou outras frases que vão me confundir se eu tentar escrever. Ou seja, é o tipo do assunto complicado, esquisito e meio caótico que você tenta ao máximo fazer com que não venha à tona, mas que, como grande parte dos assuntos complicados, esquisitos e meio caóticos, acaba vindo à tona quando você gosta de alguém ou alguém gosta de você.
E isso por duas razões. A primeira é a de que nós sempre achamos que as outras pessoas têm sobre nós a mesma opinião que nós temos, ou que pelo menos vêem na gente as mesmas qualidades que nós vemos. Suponha que você, por exemplo, se ache moderadamente feio e significativamente irritante, mas tente compensar isso sendo relativamente engraçado e moderadamente inteligente, além de saber alguma coisa sobre filmes e seriados. Esse é, em síntese, o seu set básico de qualidades e defeitos, na sua visão. Então quando você está com uma garota que tem uma opinião um tanto quanto diferente da sua, você fica claramente confuso. Afinal, se ela fala que não vê graça no seu senso de humor e que não se interessa por seriados a sensação que fica é a de um imenso WTF em relação ao porque dela gostar de você. E quando ele diz que está contigo porque, sei lá, te acha bonita, tem uma queda por garotas de óculos ou é vítima de uma praga judaica que faz com que ele goste de pessoas cujas iniciais são iguais as suas (o que for mais improvável), você vai simplesmente pensar que ele está de sacanagem e demorar bem mais tempo pra processar o fato de que talvez ele possa realmente se sentir daquele jeito (devem existir mesmo pragas judaicas, certo?).

Por outro lado nós também temos uma imensa dificuldade pra entender que as pessoas podem se ver de uma forma totalmente diferente de como são vistas por nós. Aquela garota que você acha fisicamente perfeita, linda, absurdamente atraente e que só poderia ser descrita com frases como “ela é a felicidade em forma humana, com seios” ou “eu gostaria de ter problemas de narcolepsia apenas pra acordar do lado dela mais vezes por dia” pode realmente se achar gorda, feia ou ter uma implicância com alguma parte do próprio corpo que você considera total e absolutamente irracional (“amor, eu estou vendo o raio-x pela sétima vez e continuo achando suas clavículas normais, me desculpa”), e isso não ser necessariamente charminho ou necessidade de auto-afirmação. E mesmo que você gaste horas dizendo o quanto ela é fascinante, interessante, divertida e é a coisa/pessoa que mais prendeu a sua atenção desde aquele encadernado do Starman ou do seu primeiro dia jogando “The force unleashed”, isso não vai impedir que ela ainda se ache em alguns momentos chata e desinteressante (ou que queira que você manifeste todo esse interesse exatamente durante o compacto dos gols da rodada)

Ou seja, um passo importante do processo de gostar de alguém é entender que essa pessoa vê os próprios defeitos e qualidades de uma forma totalmente única, sendo portanto o seu trabalho, gostando dela, lembrar que certos defeitos não são tão ruins quanto ela pensa, certas qualidades que ela talvez nem imagine estavam lá o tempo todo e que, ok, certas coisas que ela faz não são exatamente tão legais assim (“sabe aqueles seus passos de break dance, amor? então…”). E se deixar gostar possivelmente tem a ver com aceitar que nem sempre as pessoas gostam de nós pelas razões que nós gostaríamos ou esperaríamos, ou mesmo por qualquer razão que a gente seja capaz de compreender, considerar vagamente razoável ou entender de forma lógica. Porque as pragas judaicas estão aí pra isso, possivelmente.

domingo, 12 de setembro de 2010

Olga

Sem mais nem menos, ela começou a torcer meus dedos como se fossem parafusos. Depois, buscou um pedaço de metal quente e introduziu lentamente na carne – já inflamada – do meu dedão. Pressionou até sangrar. Um arrepio de dor parou na minha boca muda. O esforço sobre-humano para não dizer nada, para não chamar a atenção das outras mulheres que aguardavam o momento de terror.
Até que gritei: - Qual é o seu problema?
Ela me encarou e esbravejou: - Manicure almoça cedo, dona. Você me ferrou, vou ficar sem comer de novo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Será que se não falássemos português a saudade que a gente sente seria diferente? Na próxima vida quero várias coisas. Quero ser patinadora de gelo na adolescência, escritora na vida adulta e quero morar na Toscana. Mas, além de tudo isso, quero nascer na Rússia. Ou na Dinamarca. Não quero mais sentir saudade em português. Quero simplesmente “miss ”, assim, bem de levinho e sem legenda.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Você, que é um pouco de mim. Seja eu, uma única vez.

Esse texto é para você. E é sobre você, ainda que seja quase que inteiramente sobre mim. Não, não tente localizar fatos familiares, mensagens subliminares que deixem claro que é sim, sobre e para você. Você provavelmente não vai encontrá-las. Isso tudo já foi dito, de um jeito ou de outro, antes mesmo de ter sido colocado em um texto.
Precisava dizer que cansei de dar conselhos. A verdade é que eu nem sei dar conselhos. Na próxima vez em que eu involuntariamente me virar para você com um conselho iminente, cubra meus lábios. Faça seus os meus conselhos, tire-os da minha boca e os dê você para mim. Eu preciso deles.
Você, que me inspira simplesmente por ser, por favor, troque de lugar comigo uma vez. Saiba que eu não sou a mulher perfeita, sem lugares para dor e sentimentos mundanos. Os tenho todos, em grande medida. Eles só estão bem escondidos. Não me inspire mais só por ser você. Sempre que me inspirar, tente me expirar também, para que eu busque outros ares, outras inspirações, de pessoas que me façam parte de suas vidas e que me transformem em mistura química perfeita dentro de seus pulmões.
Não, eu não acho que pedi demais pela sua companhia. O que queria era a companhia de mim mesma quando estava com você. Por isso você fez falta, por isso eu chorei. Eu me perdi quando perdi você. Você me perdeu, para sempre, quando não soube entender o que era bom em mim. E por isso eu não te quis mais, a partir do momento em que percebi que você não se achou em mim. E tudo ficou para trás. Como algo que sequer existiu.
Você foi aquela história que passou muito perto de ser real. E que por isso me fez viver em fantasia. Se um dia eu estiver com você de novo como naquela tarde, não vou perder tempo em ser alguém que imaginei ser agradável ao seu olhar. Vou ser eu mesma, vou olhar nos seus olhos, vou ter certeza de que você já me conhecia muito antes de me conhecer, vou puxá-lo para me aconchegar perto do seu tronco, vou aceitar o conforto dos seus braços, que me darão a sensação de um carinho seguro. Vou manter meus olhos fechados, vou ouvir o suspiro da sua respiração chegando perto e vou deixar que nossos lábios se toquem. Pelo menos uma vez.
Você, tão idealizado, tantas vezes culpado, foi muitas vezes vítima do que eu quis que fosse. Você, quantas vezes cego e quantas vezes insensível para saber em mim o que eu achava saber em você, foi tantas vezes raso, tantas vezes menos, tantas vezes além. Você, muitas vezes parte de mim, tantas outras simplesmente ausência.
Isso tudo é para você. Isso tudo é um pouco do que eu sei em mim sobre você. Você, que nem sabe que foi. Você, que nem sabe que é.

domingo, 5 de setembro de 2010

"What's your name?"

Tenho apreço por nomes. Deve ser de família. Minha mãe se preocupa tanto com isso que, quando minha irmã nasceu, não conseguiu decidir entre os nomes pré-selecionados. Queria sentir qual deles combinava mais com a personalidade da menina, na ocasião um joelho que só se expressava através do choro. Durante quase seis meses, fomos obrigados a chamá-la, alternadamente, de Isadora, Chiara e Bruna, gerando tamanha confusão mental no bebê que até nosso gato, quando chamado, atendia com mais prontidão. Ainda que tenha achado a experiência exagerada, entendo a sua motivação. Nomes têm o poder de influir no destino do nomeado. E não digo isso com base na onomástica ou na cabala, mas em outra escola tão poderosa quanto: o mau gosto.

Ouvi falar de um pai que queria registrar o filho como Rambo. O funcionário do cartório tentou dissuadi-lo, dizendo que Rambo não era um nome propriamente dito. Depois de muita conversa, chegaram num consenso e o filho foi registrado como Sylvester Stallone. Escapou de ser título de filme, mas continuou carregando nas costas um peso pesado. Imagino o primeiro dia de aula do garoto. Sylvester Stallone!, a professora deve ter chamado, e todos viraram para trás, esperando uma imensa massa de músculos e, ao verem um menino franzino, ainda cheirando a fraldas, devem ter caído na gargalhada, dando início a uma sucessão de constrangimentos que devem tê-lo acompanhado por toda a sua vida.
É inegável: nomes compõem uma imagem. Os artistas têm tanta consciência disso que sempre apelaram sem culpa para os pseudônimos. Sabe quem foi Agenor de Miranda Araújo Neto? O Cazuza. Dá para imaginar os fãs gritando “Agenor! Agenor! Agenor!”? Era capaz de os mais desavisados nem comprarem o disco, achando se tratar de um cantor de pagode. Se Xuxa não tivesse adotado outro nome, seu programa se chamaria Show da Maria da Graça, interessante só para os baixinhos evangélicos, e olha lá. E o que dizer de Malba Tahan? Esse escolheu um pseudônimo tão persuasivo que eu passei a infância inteira achando que lia um escritor árabe, quando na verdade lia o brazuca – e muito esperto ¬– Júlio César de Melo e Sousa.

Na literatura os nomes também têm um papel relevante, já que servem de ferramenta para definir o personagem. Nesse caso, a personalidade nasce antes e o nome vem como uma extensão dela, atingindo um grau de coerência raro no mundo dos mortais. Capitu consegue condensar, em seis letras, toda a aura de mistério e sedução da personagem. Uma Terezinha de olhar oblíquo e dissimulado não fascinaria tantos os leitores. Lewis Carrol acertou chamando sua personagem de Alice. Fosse Cassandra no País das Maravilhas e o público pensaria se tratar das aventuras de uma garota pervertida com um coelho ninfomaníaco.

Seja na ficção ou na realidade, há, por trás de cada nome, a projeção de um desejo. Todos querem promover socialmente o seu rebento, muitas vezes lançando mão de firulas indizíveis para atingir esse objetivo. As classes mais baixas apelam para o status do inglês, dando origem a Maycons, Uóchingtons, Gecicas e outras pérolas que, ironicamente, nem os anglo-saxões conhecem. Já a classe média – sempre cansada de ser mediana – tenta elevar o filho apostando em nomes aristocráticos ou na grandiosidade dos sufixos: “Cassio é simples demais. Vamos pôr Cassius. Ou, melhor ainda, Cassius Frabricius”. Com as classes mais altas, o ciclo se inverte. Esses buscam a simplicidade. Não porque não queiram provar nada para ninguém – no fundo, todo mundo quer –, mas porque o que querem provar é justamente que estão acima das aspirações sociais e, portanto, podem se dar ao luxo do despojamento impresso em Claras, Pedros e Marias.

Num mundo de anseios tão diversos, o resultado é uma sociedade formada por RGs que vão de Jesus Krystos a Darkison Wilsons. O que, no final das contas, não é de todo mau, pois faz com que uma pergunta tão banal quanto “qual o seu nome?” seja o começo de uma conversa, no mínimo, divertida.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Algumas pessoas não têm noção do impacto que as palavras delas podem causar sobre as outras. Eu só acho que deveriam considerar melhor isso.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Mongo

O menino preparava toda uma civilização de areia. O rei desta civilização seria um siri. Seu nome seria Mongo. Pois se este menino vivesse em seu próprio mundo, haveria de ser chamado de Mongo, o terrível. Mal tinha cinco anos, a criança era um tirano. Um genial tirano, inclusive. Construiu uma forte parede de areia, que assim impede as ondas fortes de destruírem seu reino de areia. A verdade é que de tempos em temos uma criança, aos cinco anos, tem um surto tirânico, exatamente numa quinta feira de sol, quando os pais, vai Deus saber, decidem ir a praia. Esta criança, que pode ter sido eu ou você, começa a construir um império maligno de areia. Geralmente o surto psicótico megalomaníaco infantil deixa de existir no momento em que uma onda faz o seu trabalho. Caso não, o menino trará desgraças para o mundo. Provavelmente Mongo conseguirá.

domingo, 29 de agosto de 2010

Como é mesmo que minha mãe dizia? Quem não é visto não é lembrado. Longe dos olhos, longe do coração. Pois é. Acho que ela errou.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O baile

Toda máscara tem duas aberturas na área dos olhos, para que, mesmo quando privamos o mundo de ver nossa verdadeira face, consigamos, mesmo assim, enxergar. Com a idade, as pessoas vão, aos poucos descobrindo que é tão cômodo, é tão mais seguro esconder a fisionomia, que passam a achar que não vale mesmo a pena presentear o mundo com transparência. No entanto, são justamente os olhos que desmentem as máscaras. Eles estão e estarão para sempre lá, descobertos. E eu, da mesma forma que você, mesmo vivendo num interminável baile de máscaras, já aprendi a olhar através da porcelana, a fitar os olhos tristes que estão logo acima do sorriso radiante. No entanto, o que eu enxergava era tão bonito que me parecia apenas a mais bela máscara do baile, uma plástica distração que me transformaria em joguete, hipnotizado por aquela face que ostentava dolorosa beleza. Até hoje apalpo teu rosto procurando emendas, desníveis, vestígios de cola ou encaixes bem-feitos, sem sucesso algum. Me deixei ser levado por tamanho encanto, e sigo flutuando em simples nuances de voz, sussuros inesperados e intrincados escritos. Abriu-se uma roda. Somos o par que dança alegremente entre os mascarados, sentindo na pele do rosto a brisa de lança-perfume que faz parar o tempo, devidamente despidos das máscaras.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Revendo conceitos


Hoje eu resolvi que seria um dia diferente. Resolvi beber o café que eu nunca bebo e usar aquela caneca que nunca tive coragem. Criei coragem e decidi também acordar bem cedo, pra não perder aquele tempo que eu perdia só dormindo. Resolvi também usar aquela camisola bonita, sabe, que eu nunca usei por ter muitas opções. Mas hoje optei por ela. Resolvi pintar minhas unhas com uma cor de esmalte diferente, pra ver se consigo dar um ar diferente a quem me olha também. Resolvi tirar a maquiagem mesmo chegando em casa bêbada, e resolvi beber um pouco menos também. Resolvi ouvir músicas novas que nunca dei atenção e sempre dizia que não gostava. Resolvi também ligar pra alguém que não falo a muito tempo só pra perguntar como as coisas estão e resolvi repensar meus conceitos. Mas apesar disso tudo, ainda continuo pensando em você.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

If I ever leave this world alive.


Vontade de escrever uma carta. De enviar uma carta. De selar uma carta. De ir junto com a carta.

sábado, 7 de agosto de 2010

Dercy nossa, que estais no céu.

A idéia que eu fazia de Purgatório era diferente.
Imaginava um tipo grandioso de quiosque lá em cima no céu, com ar de qualidade, bastante respirável e cristalino. Uma luz diáfana como as que se vê com facilidade em ilustrações bíblicas perfuraria com suavidade as nuvens de algodão divinas.
À frente desse quiosque magistral, mais precisamente em seu portal, haveriam imponentes arcanjos à espera daqueles que chegassem de suas vidas terrenas.
Ao fundo, num trono, o Poliarca estaria pronto para ouvir - com compaixão cristã - a trajetória de cada vivente.
Mas lamentavelmente tive meu passamento, fui para lá e não era nada disso.
Mal tive tempo de perceber que já era e estava num lugar penumbroso, úmido e com cheiro de desinfetante de eucalipto barato, desses usados em banheiros públicos.
Os candidatos a entrar no Firmamento, entre eles eu, estavam todos espremidos numa salinha suja e tão escura que não se conseguiria reconhecer o Jô Soares pelado, lambrecado de marshmallow, fumando um Cohiba.
Havia um silêncio pesado, que logo foi interrompido por uma incômoda microfonia. Uma voz de homem, com forte sotaque hebraico, disse num português carregado:
- Faz favor, a próximo!
Ouvi um resmungo de enfado e, em seguida, ruídos de saltos altos femininos ecoarem pela sala: toc, toc, toc, toc.
Era alguém indo para “patíbulo”.
Apurei ao máximo a audição. A voz masculina vinda do sistema de som aumentou de volume se expandindo para todas as alas fétidas do Purgatório. Era como se todos precisassem escutar a entrevista final uns dos outros.
- Nome? - Dercy. - Profissão senhora? - Puta. - Senhora ter certeza que profissão senhora essa? - Porra, e tu acha que tem diferença entre uma atriz e uma puta? - Descreve vida senhora no Terra, faz favor. - Uma merda. - Ficha senhora diz: senhora mulher famosa. - Famosa? Ai meu caralhinho! Adianta ser famosa e só tomar na tarraqüeta? - “Tarraqüeta”, faz favor, explica melhor palavra? - Cu. Que adianta ser famosa e só tomar no meio do cu? - Por que senhora “tomar em seu tarraqüeta” assim, tempo todo? - Porque fui burra pra caralho, meu filho. Sai da minha cidadezinha no interior, me meti a fazer teatro de revista e só conheci homem filho da puta na minha vida. Só bundalelê, seu padre. - Eu não ser padre, senhora. Eu ser Poliarca. - Poliarca, patriarca, pederasta, eu sei lá o que tu é. Eu sei é que eu tô com uma fome fodida. Não tem nada pra comer nessa boceta não? - Senhora, faz favor... - ...é só um bando de nêgo fantasiado de franga olhando pra gente com cara de cu, parece que alguém enrabou a mãe deles. Que porra de lugar escroto é esse aqui, seu Pederasta! - Senhora estar na meio caminho para Céu ou Inferno. Aqui não ter nada para senhora comer. - Puta que pariu, não tem nem uma carninha batida com quiabo nessa porra? - Lamenta dizer que não, senhora. - Olha aqui, seu Pederasta, se isso aqui for uma pegadinha da Globo, rescindo meu contrato na hora, tá sabendo? Aí eu quero ver essas merdas dos programas de vocês darem audiência sem meus xingamentos! Se eu não comer em cinco minutos, vou botar pra foder nesse rendez-vous de viado! - Mas senhora não entende? Senhora morreu! - Quem morreu foi você, seu santo do caralho oco! Eu tenho 100 anos e um puta público que me adora, entendeu bostalhão? Me bota num palco aqui e tu vai ver se eu não faço esses teus anjos baitolas rirem até estourarem as pregas do rabo. Vai, anda!
Nesse momento, houve uma grande e aguda microfonia. O sistema de som tinha sido cortado. Contudo, passados alguns momentos, foi novamente religado. Depois de um pigarro e uma tosse fraca vinda das caixas, pude ouvir a voz com sotaque europeu oriental mais uma vez:
- A próximo, faz favor.
Agora era a minha vez.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

- "Tenta sim. Vai ficar lindo." Foi assim que decidi, por livre e espontânea pressão de amigas, me render à depilação na virilha. Falaram que eu ia me sentir dez quilos mais leve. Mas acho que pentelho não pesa tanto assim. Disseram que meu namorado ia amar, que eu nunca mais ia querer outra coisa. Eu imaginava que ia doer, porque elas ao menos me avisaram que isso aconteceria. Mas não esperava que por trás disso, e bota por trás nisso, havia toda uma indústria pornô-ginecológica-estética. - "Oi, queria marcar depilação com a Penélope. - "Vai depilar o quê?" - "Virilha." - "Normal ou cavada?" Parei aí. Eu lá sabia o que seria uma virilha cavada. Mas já que era pra fazer, quis fazer direito. - "Cavada mesmo." - "Amanhã, às... deixa eu ver...13h?" - "Ok. Marcado." Chegou o dia em que perderia dez quilos. Almocei coisas leves, porque sabia lá o que me esperava, coloquei roupas bonitas, assim, pra ficar chique. Escolhi uma calcinha apresentável. E lá fui. Assim que cheguei, Penélope estava esperando. Moça alta, mulata, bonitona. Oba, vou ficar que nem ela, legal. Pediu que eu a seguisse até o local onde o ritual seria realizado. Saímos da sala de espera e logo entrei num longo corredor. De um lado a parede e do outro, várias cortinas brancas. Por trás delas ouvia gemidos, gritos, conversas. Uma mistura de Calígula com O Albergue. Já senti um frio na barriga ali mesmo, sem desabotoar nem um botão. Eis que chegamos ao nosso cantinho: uma maca, cercada de cortinas. - "Querida, pode deitar." Tirei a calça e, timidamente, fiquei lá estirada de calcinha na maca. Mas a Penélope mal olhou pra mim. Virou de costas e ficou de frente pra uma mesinha. Ali estavam os aparelhos de tortura. Vi coisas estranhas. Uma panela, uma máquina de cortar cabelo, uma pinça. Meu Deus , era O Albergue mesmo. De repente ela vem com um barbante na mão. Fingi que era natural e sabia o que ela faria com aquilo, mas fiquei surpresa quando ela passou a cordinha pelas laterais da calcinha e a amarrou bem forte. - "Quer bem cavada?" - "...é ... é, isso." Penélope então deixou a calcinha tampando apenas uma fina faixa da Abigail, nome carinhoso de meu órgão, esqueci de apresentar antes. - "Os pêlos estão altos demais. Vou cortar um pouco senão vai doer mais ainda. - "Ah, sim, claro. Claro nada, não entendia porra nenhuma do que ela fazia. Mas confiei. De repente, ela volta da mesinha de tortura com uma espátula melada de um líquido viscoso e quente (via pela fumaça). - "Pode abrir as pernas." - "Assim?" - "Não, querida. Que nem borboleta, sabe? Dobra os joelhos e depois joga cada perna pra um lado." - "Arreganhada, né?" Ela riu. Que situação. E então, Pê passou a primeira camada de cera quente em minha virilha virgem. Gostoso, quentinho, agradável. Até a hora de puxar. Foi rápido e fatal. Achei que toda a pele de meu corpo tivesse saído, que apenas minha ossada havia sobrado na maca. Não tive coragem de olhar. Achei que havia sangue jorrando até o teto. Até procurei minha bolsa com os olhos, já cogitando a possibilidade de ligar para o Samu. Tudo isso buscando me concentrar em minha expressão, para fingir que era tudo supernatural. Penélope perguntou se estava tudo bem quando me notou roxa. Eu havia esquecido de respirar. Tinha medo de que doesse mais. - "Tudo ótimo. E você?" Ela riu de novo como quem pensa "que garota estranha". Mas deve ter aprendido a ser simpática para manter clientes. O processo medieval continuou. A cada puxada eu tinha vontade de espancar Penélope. Lembrava de minhas amigas recomendando a depilação e imaginava que era tudo uma grande sacanagem, só pra me fazer sofrer. Todas recomendam a todos porque se cansam de sofrer sozinhas. - "Quer que tire dos lábios?" - "Não, eu quero só virilha, bigode não." - "Não, querida, os lábios dela aqui ó." Não, não, pára tudo. Depilar os tais grandes lábios ? Putz, que idéia. Mas topei. Quem está na maca tem que se fuder mesmo. - "Ah, arranca aí. Faz isso valer a pena, por favor." Não bastasse minha condição, a depiladora do lado invade o cafofinho de Penélope e dá uma conferida na Abigail. - "Olha, tá ficando linda essa depilação." - "Menina, mas tá cheio de encravado aqui. Olha de perto." Se tivesse sobrado algum pentelhinho, ele teria balançado com a respiração das duas. Estavam bem perto dali. Cerrei os olhos e pedi que fosse um pesadelo. - "Me leva daqui, Deus, me teletransporte". - Só voltei à terra quando entre uns blábláblás ouvi a palavra pinça. - "Vou dar uma pinçada aqui porque ficaram um pelinhos, tá?" - "Pode pinçar, tá tudo dormente mesmo, tô sentindo nada." Estava enganada. Senti cada picadinha daquela pinça filha da puta arrancar cabelinhos resistentes da pele já dolorida. E quis matá-la. Mas mal sabia que o motivo para isso ainda estava por vir. - "Vamos ficar de lado agora?" - "Hein?" - "Deitar de lado pra fazer a parte cavada." Pior não podia ficar. Obedeci à Penélope. Deitei de ladinho e fiquei esperando novas ordens. - "Segura sua bunda aqui?" - "Hein?" - "Essa banda aqui de cima, puxa ela pra afastar da outra banda." Tive vontade de chorar. Eu não podia ver o que Pê via. Mas ela estava de cara para ele, o olho que nada vê... Quantos haviam visto, à luz do dia, aquela cena? Nem minha ginecologista. Quis chorar, gritar, peidar na cara dela, como se pudesse envenená-la. Fiquei pensando nela acordando à noite com um pesadelo. O marido perguntaria: - "Tudo bem, Pê?" - "Sim... sonhei de novo com o fiofó de uma cliente." Mas de repente fui novamente trazida para a realidade. Senti o aconchego falso da cera quente besuntando meu twin peaks. Não sabia se ficava com mais medo da puxada ou com vergonha da situação. Sei que ela deve ver mil cús por dia. Aliás, isso até aliviava minha situação. Por que ela lembraria justamente do meu entre tantos? E aí me veio o pensamento: peraí, mas tem cabelo lá? Fui impedida de desfiar o questionamento. Pê puxou a cera. Achei que a bunda tivesse ido toda embora. Num puxão só, Pê arrancou qualquer coisa que tivesse ali. Com certeza não havia nem uma preguinha pra contar a história mais. Mordia o travesseiro e grunhia ao mesmo tempo. Sons guturais, xingamentos, preces, tudo junto. - "Vira agora do outro lado." Porra.. por que não arrancou tudo de uma vez? Virei e segurei novamente a bandinha. E então, piora. A bruaca da salinha do lado novamente abre a cortina. - Penélope, empresta um chumaço de algodão? Apenas uma lágrima solitária escorreu de meus olhos. Era dor demais, vergonha demais. Aquilo não fazia sentido. Estava me depilando pra quem? Ninguém ia ver o tobinha tão de perto daquele jeito. Só mesmo Penélope. E agora a vizinha inconveniente. - "Terminamos. Pode virar que vou passar maquininha." - "Máquina de quê?!" - "Pra deixar ela com o pêlo baixinho, que nem campo de futebol." - "Dói?" - "Dói nada." - "Tá, passa essa merda..." - "Baixa a calcinha, por favor." Foram dois segundos de choque extremo. Baixe a calcinha!!!...como alguém fala isso sem antes pegar no peitinho? Mas o choque foi substituído por uma total redenção. Ela viu tudo, da perereca ao cú. O que seria baixar a calcinha? E essa parte não doeu mesmo, foi até bem agradável. " - Prontinha. Posso passar um talco?" - "Pode, vai lá, deixa a bicha grisalha." - "Tá linda! Pode namorar muito agora." Namorar...namorar... eu estava com sede de vingança. Admito que o resultado é bonito, lisinho, sedoso . Mas doía e incomodava demais. Queria matar minhas amigas. Queria virar feminista, morrer peluda, protestar contra isso. Queria fazer passeatas, criar uma lei antidepilação cavada.

Plágio.

Nunca tinha parado para pensar, até minutos atrás. O mundo é um plágio. Dá-se o exemplo de um filme romântico, mesmo que a história já tenha acontecido em outro filme, você o assiste, porque os atores são outros, e interpretam de outra maneira. Seria então um caso subliminar de substituição ou entretenimento passivo? A vida é mais ou menos assim, alguns casos se repetem mas com pessoas distintas e voltamos a viver aquilo que até mesmo um dia nos machucou e sabemos que vai machucar de novo. A gente sabe, mas a gente se engana, essa é a verdade que ninguém quer perceber.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Inverno nuclear.

Era uma vez uma marionete. Daqueles de madeira, com cordinhas prezas ao corpo como os que se vê por ai. Nessa vez, não tínhamos mais ventríloquos, para dar voz ao boneco. Ele ficava pendurado, entre coisas velhas sem nome, talvez sonhando encontrar uma fada azul, tal qual Pinóquio. Talvez sonhando em ver aquelas cordas que estrangulam seus membros sumirem, de sentir calor em seu corpo, aprender a respirar e ter brilhos em seus olhos. Um dia alguns mendigos invadiram aquele lugar, assim como as coisas lá jogadas, não tinham nome. Era um inverno nuclear e tudo que fosse madeira ajudaria numa fogueira.

Eu sei. Você sabe.

Existe um momento na vida de cada um em que é preciso separar tudo que você já viveu daquilo que está por vir. Existe algo que ninguém pode notar. Ninguém, ninguém além de mim. E eu sei. Eu sei o que acontece quando te cobram demais, quando exigem de você coisas que você não pode dar. Hoje, depois de tudo, não sei se há como esconder a insegurança da vontade de se deixar levar pelo momento. E acho que somente em momentos como esse, quando palavras se tornam desnecessárias, é que poderemos descobrir o que é ou não é real. Ainda espero a minha resposta, ainda espero que a resposta venha de você. A minha parte já fiz, permanecendo aqui mesmo sem ter motivos para isso. E eu não preciso provar mais nada para ninguém. E você não precisa provar mais nada para ninguém. E somente eu sei o que acontece quando te cobram demais, quando exigem de você coisas que você não pode dar. E isso é algo que jamais farei. Então, quando perguntarem o que nos liga ainda, depois de tanto tempo, permaneça em silêncio. É algo que só eu e você entendemos a complexidade, o tamanho. E eu sei que a sua luta para tentar me esquecer durante todo esse tempo foi bem menor do que a vontade de ficar para sempre ao meu lado.

terça-feira, 9 de março de 2010

Noite passada.

Voltei para a cama e chorei o choro mais profundo, antigo e verdadeiro que já chorei em toda a minha vida. Um choro daqueles contidos pela eternidade. Me recordei rapidamente de todas as pessoas e coisas que perdi por ainda não estar preparada para elas, ou por ainda ter muita curiosidade de mundo e dificuldade em ser permanente. Recordei de amigos e parentes distantes, aqueles que eu sempre deixo pra depois porque moram muito longe ou acabaram se tornando pessoas muito diferentes de mim, sempre penso “mês que vem faço contato com eles”. E se não tiver mês que vem? Finalmente chorei todos os meus amores que acabaram, todas as portas que eu deixei entreabertas (porque sou péssima em fechá-las) e que se fecharam pela vida: a maioria se mudou, juntou, sumiu, nem sei por onde anda. Alguém quis fazer desses amores perdidos moradias e eu mais uma vez fiquei sem minha placa de “aluga-se”. Enfim chorei o fim de tudo, assim é a vida, uma morte a cada dia. Depois, como sempre, limpei o rosto e continuei procurando pela minha casa. Estar sempre insatisfeito, na verdade, é o que faz a gente nunca desistir de seguir em frente e quem sabe um dia se encontrar nesse mundo.