Só outro dia aprendi que blue note é a nota triste, associação que eu nunca tinha feito antes. Me contaram que essa nota é uma herança das escalas musicais entoadas pelos africanos em suas canções de trabalho. Assim, numa melodia diatônica tradicional do ocidente, a nota triste soa como uma nota inesperada na linha melódica, uma terça, uma quinta, ou uma sétima mais para baixo. Quando o ouvinte espera um intervalo maior, vem esse intervalo menor e é essa diminuição do tempo entre duas notas que é triste. A tristeza, ou melhor, a tristeza azul, é a diminuição do intervalo esperado.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
terça-feira, 29 de maio de 2012
Exit
Fecho os olhos pra não ter mais que te escutar, seus sussurros são opacos demais, suas palavras perdem a transparência no momento em que começa a colorí-las. Assim tão próximo, seu corpo transforma-se em borboleta, colorido e repugnante, não é a cor que vai te tirar da posição de inseto, nenhum fingimento pode fazer desaparecer as escamas que carrega nas asas. Suas palavras, entretanto, são mariposas, grotescas ao olhar de perto, porém leves, tranquilas de ouvir de longe; não tentam fingir uma beleza que não têm. Me agrada a sua polinização sincera e desengonçada, monocromaticamente correta em uma natureza fútil e espalhafatosa.
Fecho os olhos e você desaparece, junto com a paisagem, junto com tudo o que eu já quis que você fosse; talvez eu valorize demais as palavras em detrimento das imagens, porém, devo confessar, não sei colorir seus parágrafos dentro das linhas e acho também que ninguém te ensinou a falar colorido sem se borrar.
A solução é ouvir em preto e branco.
O caminho mais curto é me cegar pra tua voz, mas não se perca em um conceito de desafio, há muitos anos coleciono rouquidão, isso é tão ridiculamente fácil, é preciso apenas juntar todo o tempo em que se fecha os olhos pra piscar para ficar a maior parte do dia sem enxergar.
Fecho os olhos e você desaparece, junto com a paisagem, junto com tudo o que eu já quis que você fosse; talvez eu valorize demais as palavras em detrimento das imagens, porém, devo confessar, não sei colorir seus parágrafos dentro das linhas e acho também que ninguém te ensinou a falar colorido sem se borrar.
A solução é ouvir em preto e branco.
O caminho mais curto é me cegar pra tua voz, mas não se perca em um conceito de desafio, há muitos anos coleciono rouquidão, isso é tão ridiculamente fácil, é preciso apenas juntar todo o tempo em que se fecha os olhos pra piscar para ficar a maior parte do dia sem enxergar.
domingo, 27 de maio de 2012
Espera
No romance "A fera na selva", de Henry James, John não se dá conta de que o objeto de sua espera infinita esteve a vida toda diante dele próprio. A espera é um tempo narcísico e inflado; ocupa tanto todos os espaços do esperador, que o impede de ver além da espera. O esperador compraz-se tanto em ser sujeito e vítima da espera, que a realização de seu conteúdo pode, para ele, não passar de frustração.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Presença
Por algum tempo (pouco que seja) estar longe de si, ausente de si, sem saber qual é o sentido de se ter o nome que se tem, o tamanho, o peso, o volume. Ser uma presença sem ideias e passar.
domingo, 20 de maio de 2012
Medida
Um silêncio de algo que está sendo não dito, diferente do silêncio de nada estar sendo dito, do silêncio carregado de si mesmo, do silêncio de tudo estar sendo dito. Um é poder, outro é apatia, outro é autonomia, outro é pacto. O silêncio é um alfabeto dificílimo. Não há dicionário nem método para aprendê-lo. Para se comunicar com um silêncio a língua de acesso é o tempo e, com sorte, o olhar. Falar atrapalha. Diante de alguns silêncios é preciso tomar cuidado. Outros não querem cuidado nenhum. Para uma hermenêutica do silêncio, a melhor medida é respirar.
sábado, 19 de maio de 2012
Anticoagulante
Acontece assim: eu corto os seus pulsos, a culpa vai parecer toda sua, corto seguindo o curso da artéria radial, quero fazer uma bagunça. Eu gosto de sangue. Eu gosto do seu sangue. Quero beber, colocar em um balde, derramar pela casa. Rolar no teu sangue, é isso o que eu quero. Mergulhar em piscina de plasma e enxergar através do seu vermelho, enquanto você cai debilmente na cama, quero nadar nas suas veias.
Sonho todas as noites em tirar sua vida com os dentes, usar os caninos para te rasgar em todos os pulsos principais. Por você, eu não beberia nada além de sangue, nada além do teu sangue, nem mesmo água, e estou com tanta sede, cinco litros de você só vão servir para engrossar minha saliva, tirar a minha água enquanto você sangra no colchão, mas não me peça para tirar também minhas máscaras, não quero acelerar a desidratação.
Seu corpo já está morto, inerte, pálido, chupei sua carótida como uma tangerina e continuo te deixando sangrar mesmo depois de passado o prazo de validade. Antes de beber, encho as tripas de heparina para te impedir de coagular dentro de mim, é muito do seu sangue para pouco ácido no meu estômago, a qualquer momento posso ter uma indigestão, mas ainda assim quero sua estirpe bem viva no meu esôfago e intestino, meu sangue e teu sangue com apenas uma camada de músculo liso para separar, quero me banhar nas suas feridas abertas para que elas não tenham tempo de cicatrizar.
Sonho todas as noites em tirar sua vida com os dentes, usar os caninos para te rasgar em todos os pulsos principais. Por você, eu não beberia nada além de sangue, nada além do teu sangue, nem mesmo água, e estou com tanta sede, cinco litros de você só vão servir para engrossar minha saliva, tirar a minha água enquanto você sangra no colchão, mas não me peça para tirar também minhas máscaras, não quero acelerar a desidratação.
Seu corpo já está morto, inerte, pálido, chupei sua carótida como uma tangerina e continuo te deixando sangrar mesmo depois de passado o prazo de validade. Antes de beber, encho as tripas de heparina para te impedir de coagular dentro de mim, é muito do seu sangue para pouco ácido no meu estômago, a qualquer momento posso ter uma indigestão, mas ainda assim quero sua estirpe bem viva no meu esôfago e intestino, meu sangue e teu sangue com apenas uma camada de músculo liso para separar, quero me banhar nas suas feridas abertas para que elas não tenham tempo de cicatrizar.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Perda
Achei que tinha perdido as chaves de casa, mas não perdi. Achei que tinha perdido os óculos, mas estão comigo. Mas perdi um livro, um caderno, um colar, uma canga, uma ideia, uma parte da memória e, ontem, uma vontade que anteontem eu sentia de abraçar alguém.
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