Eu estava deitada, meio doente, na cama da minha avó. Acho que eu tinha uns cinco ou seis anos. Ela estava pronta para sair. Passou pelo quarto e disse: tchau, la. Eu olhei para ela, triste e pedi: té,
fica, vai. Ela disse: está bem. E ficou. Sou profundamente agradecida a ela por
isso até hoje. Às vezes é tão bom ficar.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Desejo inconsciente
O sonho começa comigo mascando chiclete.
Possui sabor de tutti-frutti, daqueles que só havia na minha infância. Ele ocupa toda a minha boca. Com o tempo o sabor original se mistura a tudo que o ato de mastigar sem engolir drena de meu sistema digestivo, e o doce se torna ácido, azedo. A essa altura a goma já havia crescido e ocupado tudo, grudado em meus dentes, em minha língua, no céu da minha boca. Já não é possível me livrar do chiclete com um simples esforço.
Possui sabor de tutti-frutti, daqueles que só havia na minha infância. Ele ocupa toda a minha boca. Com o tempo o sabor original se mistura a tudo que o ato de mastigar sem engolir drena de meu sistema digestivo, e o doce se torna ácido, azedo. A essa altura a goma já havia crescido e ocupado tudo, grudado em meus dentes, em minha língua, no céu da minha boca. Já não é possível me livrar do chiclete com um simples esforço.
Levanto pra ir ao banheiro e separar a goma de minha boca.
Não há caminhos até o banheiro, gera um corte de
cena e me vejo debruçada na pia, mãos dentro da boca para desgrudar o chiclete, que demora a sair. Quanto mais eu puxo, mais
parece que sou eu me despedaçando ali. Já não há mais a cor falsa da goma
tutti-frutti. A porta começa a balançar e mal consigo grunhir para
avisar que o banheiro está ocupado.
Saio do lavatório ainda com a boca ocupada, sem conseguir me
expressar. Um homem grisalho e de suéter, me repreende.
“Depois desse tempo todo, você ainda não conseguiu?” Abaixo a cabeça, e ao levantar a vista me deparo com um avião vazio. Poucas
pessoas ocupam lugares esparsos. De vez em quando uma se levanta, se dirige
para a porta e pula. Ninguém parece se incomodar.
Olho pela janela e vejo apenas o céu matinal, tanto aos
lados quanto sob o avião. Pergunto à comissária se ainda é dia. “Ainda é dia,
mas não é mais cedo”. Questiono a altura em que nos encontramos. Ela ri.
“Altura? Acho que ainda nem saímos do chão”. Respondo com dificuldade, “E esse
azul sob a gente? E esse céu?” “Céu? Eu só vejo chão”. E saiu de perto de mim
para ir até a porta e pular.
Me sento
ao lado de uma senhora idosa. Ela me diz que adora conversar, mas que está
cansada e quer apenas ouvir uma canção. Faço sinal negativo com a cabeça; não
consigo nem mesmo balbuciar a frase explicando os motivos de não poder mais
cantar. Ela se irrita e diz que não canto porque não quero; se levanta, vai até
a porta e pula.
Vou até a porta também. Olho para baixo e vejo o mesmo azul
sem fim, sem norte, sem referência, sem profundidade. Um homem para a meu lado e diz que é gostoso pular, mas
que eu não deveria fazê-lo. Minha vontade é perguntar por que só eu não devo,
ou se ninguém deve, ou o que há de gostoso no azul, ou por que não consigo
falar. Em vez disso, olho para ele e aponto minha própria boca. “Você pôs na
boca o chiclete, não? Então fique firme e continue no avião”.
Com muito esforço, pergunto apenas “Por quê?” Ele me
responde: “Se você sair não há mais avião”, e me puxa para trás.
Caio de costas em minha própria cama, suada, com um filete
de sol em meu rosto. Ainda é dia, mas não é mais cedo.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Nada
Não, nós não temos nada. Não somos nada um do outro. Semana passada vimos um filme péssimo, um dos piores que eu já vi e a minha vontade no cinema
era de deitar a cabeça no seu ombro e viver. Se passassem dois anos, eu não
notaria. Não chegamos
a sair de mãos dadas do cinema, não temos esse hábito. Nos esbarramos várias
vezes, nossos braços se batem de uma forma que se fosse em qualquer outra
pessoa, me incomodaria muito. Mas não em você. Você adora.
Nós não somos nada,
então não nos beijamos em público o tempo todo, só às vezes. Fomos tomar
sorvete e você estava sem barba, nessas horas eu penso que se
nós fossemos alguma coisa, eu nunca deixaria que você tirasse a barba, mas não
posso dizer mais, senão vou ter que revelar que acho você incrivelmente lindo do
outro jeito e eu não quero – ou não posso – me entregar assim.
Quando você
disse que gostava de mim – bastante – a primeira coisa que eu senti foi
verdade, mas logo veio um medo. Você diz coisas que não fazem o menor sentido e
discute assuntos que eu não quero nem ouvir e então eu dou graças a deus por
nós não sermos nada. É tão mais fácil. Mas aí acontece de eu não querer dormir
sozinha de jeito nenhum e pensar em ligar pra você. Uma parte de mim, confesso,
preferia que você não atendesse, mas você atende e vem até aqui e nós
assistimos ao nosso preferido juntos. Rimos alto e nos olhamos, procurando a
alegria compartilhada. E ela está ali, no sofá, esparramada, à vontade. Meu
relógio anda em pulos e só durmo quando amanhece. Interrompo raciocínios com
beijos afogados e desesperados e pausados e pesados e saudosos.
Estou cheia de nada, enquanto me preparo para o vazio de amanhã.
sábado, 15 de setembro de 2012
Conselho
Foda.
Foda os seus dias de pessoa vacilante e medrosa. Foda o menino com
espinhas que não teve coragem de te namorar. Foda os dias de sol forte na praia
e a vontade de tirar o biquíni pra cair nua no mar. Foda o autoritarismo de quem acha que pode mais. Foda o desejo de abandonar
o escritório e ir ao cinema comer pipocas.
Foda o relacionamento enrolado tão difícil de cortar. Foda
a amizade que é só amizade. Foda o amor que é menos que amor. Foda a noite só
em frente à televisão ou na internet fuçando na rede social. Foda o pânico da
solidão. Foda o que só se repete. Foda o livro há semanas na cabeceira. Foda a
idade, a vaidade e a maldade que às vezes aflora e te deixa sem eira nem beira.
Foda a raiva, a tpm e o rancor. Foda o desejo de dar
agora. Foda o sexo em si, a coisa em si, e não saber o que é o ser-para-si.
Foda o que não vai para frente, a pedra no meio do caminho, o que ficou para
trás, o impasse.
Foda muito. Foda-se.
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Constatação
Quando estiver amanhecendo e eu acordar, antes mesmo de a
consciência perceber que horas são, preciso me lembrar do seguinte: as flores
que nascem nos telhados não estão em seu ambiente natural, mas estão mais
próximas do céu. Quando estiver amanhecendo e eu acordar, basta me lembrar que
não importa qual dia é hoje. O que importa é que é o princípio de alguma coisa.
terça-feira, 11 de setembro de 2012
(re)Mar
Tem dias em que penso que preciso mesmo é de um barco.
Quando era criança, costumava me sentar na beira do mar
com meu tio e jogar pedras nas águas paradas. Costumava comprar um picolé de
morango e um suco sem açúcar, com gelo.
Mais tarde, a vida me afastou do mar e do meu tio, e eu
fui boiando por aí. Mas nada parecido com o boiar tranquilo de quem se deita
com a barriga para cima, olhos fechados, sorriso tranquilo. Era mais um boiar
pré-afogamento, apenas a cabeça fora d’água, braços e pernas se sacudindo para
evitar os golpes de mar no rosto.
Tem dias em que penso em trocar tudo por um barco.
No meu boiar atrapalhado consegui juntar uma série de
coisas: inseguranças, mágoas, traumas. Consegui também juntar dinheiro. Pouco
dinheiro. Mas o suficiente para um barco. Para algum barco.
Comprei um barco. Algum barco. Mas o mar não era mais o
mesmo. As águas não estavam mais paradas, as pedras não gostavam mais de quicar
e desenhar círculos perfeitos. Ninguém mais me vendia picolés de morango.
Ninguém mais me pedia sucos sem açúcar, com gelo.
Pensei então em pular do barco. Dos barcos. Dos dois. No
meio do mar que não é mais parado.
E isso seria, talvez, a primeira remada de minha vida. A
primeira e a última.
Tem dias em que penso que tenho é barcos demais.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Verdade camuflada
Declaro que faço parte dessa juventude de olhos cegos,
mãos atadas e pensamento paralítico. Declaro que, no direito inalienável do meu
silêncio, compactuo com todas as atrocidades cometidas diariamente contra toda
sorte de pessoas: da fome ao preconceito, do desemprego à depressão. Declaro
ainda que, como representante da classe, penso apenas em mim, nas minhas coisas
e nos meus objetivos particulares. Desde cedo, aprendi que a felicidade é algo
que devo buscar por mim mesmo, algo que não pode ser construído coletivamente.
Prefiro indiscutivelmente ser um indivíduo a ser um cidadão. Esnobo a puta e o
mendigo, não os encaro. Percebo que sou frágil; tenho medo, muito medo. Da
morte, da solidão e da polícia. Não vou às ruas. Não tenho causas nem
preceitos. Não vejo motivo para protestos porque acho que as coisas estão indo
sempre muito bem. Declaro que não sou conservador nem liberal, porque pouco sei
da política. Como todos os outros, reclamo por entre os dentes, digo que o
Brasil não vai pra frente mesmo, que os políticos são todos uns safados.
Declaro que acredito na verdade que me chega pela televisão, não preciso de
outras fontes.
Minhas músicas são meu combustível diário, coloco os fones nos
ouvidos e afasto-me da realidade, crio uma barreira entre mim e o que acontece
ao meu lado. Declaro que sou guiado pelo prazer a qualquer custo, a qualquer
tempo. Sempre corro, não sei de quê, não sei pra onde. Prefiro não saber o que
nos move à frente, ou ainda, o que não nos move. Declaro que faço parte da
massa pálida e descafeinada que engrossa as filas de emprego sem se questionar
e sem protestar. Somos uns cordeiros, todos. Tenho fé ainda de que a felicidade
virá na caixa do Sucrilhos do dia seguinte. Declaro que meu projeto mais
ambicioso é erguer minha casa de gramado verde e cercas brancas e construir uma
família onde vivamos todos tal e qual o comercial de margarina.
Eu, filho do
carbono e do amoníaco, espero sempre. Pelo beijo ou pelo escarro. De minha
face, contudo, nenhum músculo se moverá. Declaro, em nome de todos que
represento, que optamos por ser assim, que é nossa escolha estar sempre indiferente
ao que quer que seja, que temos até um certo orgulho em não sermos mais do que
pedaços inertes de plástico.
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