segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Desembaraço

Eu peguei um estilete e cuidadosamente separei você de mim,
nas fotos.

Uma por uma. Eram muitos álbuns e eu não pretendia sair de casa,
até terminar.

Contornei as nossas mãos entrelaçadas,
e não deixei qualquer vestígio da minha pele junto a sua. 
Assim me parecia fácil,
afastar-nos.

Uma e outra não teve jeito.
Ou eu levava um braço seu, 
ou você ficou com mechas dos meus cabelos.

Acho que deve ser assim mesmo. Alguns pedaços se misturam,
de um jeito muito difícil,
de desembaraçar.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Trajetos

O meu medo é que a gente deixe essa semana passar, que o mês inteiro passe, dois meses, um ano, sabe lá quantos anos a gente vai deixar passar. O meu medo é que a gente mude. Quer dizer, é claro que vamos mudar, minha preocupação é que é possível que deixemos esse tempo passar indefinidamente até eu não mais saber da sua vida, até você também não saber nada da minha, até sermos pessoas diferentes, separadas por incontáveis mudanças, que nos impedirão de, algum dia, voltarmos para as pessoas que fomos, ou que quisemos ser - ou que pensávamos querer ser.

Nós não vamos nos esbarrar por aí como acontece nos filmes. Eu não vou ter a oportunidade de ver a sua felicidade de relance. O traçado urbano abaixo de nós foi desenhado com o intuito de impedimento. A cidade foi construída pensando em minhas separações, e uns tantos quadrados riscados do meu calendário, após eu perder a conta das tantas páginas e dias que se passaram, seremos aquelas pessoas as quais estamos destinados a nos transformar, com novos pensamentos, com ideias diferentes sobre o capitalismo, sobre as mudanças climáticas, sobre os personagens das nossas séries favoritas, estaremos em universos diferentes, separados por treze ou dezesseis estações de metrô que nunca se cruzam.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Cárcere


“De boas intenções o inferno está cheio”, e por isso eu fui parar lá.

O fogo não é tão quente quanto esperamos. Se o “frio é psicológico”, o calor não passa de um estado de espírito. Não arde, não queima, mas dá um mal estar.

O fogo do inferno me queimava enquanto eu pensava sobre as atitudes que não tomei. Aquele caminho sem volta de todo dia – a rotina – só fazia com que o purgatório fosse uma espécie de residência fixa. Eu não morava lá, mas era lá que eu me sentia bem.

Os demônios agem como pessoas comuns, até porque são. Talvez não na minha frente, mas sinto que pelas costas eles atuam como pequenos núcleos de uma grande base que movimenta as minhas escolhas. Eu tenho o poder de escolher. Eles têm o poder de influenciar.

Entre infernos e demônios existe o meu dilema. O mal estar do calor, o bem estar do purgatório e os diabos moldando as situações criam o meu próprio inferno, da qual nenhum outro faz parte, nenhum pode entrar e eu não posso sair. O meu inferno pessoal está ligado diretamente aos meus desejos, as minhas palavras, a minha vontade. Não sei se quero sair do inferno enquanto ele está assim, superficialmente confortável.

Enquanto viver, não posso sair do inferno, pois “o inferno são os outros”.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Pra você

Querido,

de novo estou atrasada. E de novo posso arrumar inúmeras justificativas injustificáveis. Não sei se está incomodando você esse tempo em que não estamos tendo para falar de coisas corriqueiras. Pra mim, tá começando a ficar bem chato. Porque gosto de saber das coisas comuns, se você está aproveitando o seu tempo para o trabalho artístico ou procurando algum, se está lendo algum livro, pra onde tem ido, que filmes tem visto, se já escutou aquele álbum do Gun's que ficou faltando. Só não tenha dúvidas de que acordo pensando em duas coisas: preciso escrever e preciso falar com você.

Hoje, em especial, gostaria de estar perto de falar de como estou me sentindo. Acho que estou perto desse fim de balanço. E, talvez por isso, não tenho tido assunto suficiente para transformar em um texto. Você inventa histórias e eu só sei falar de mim mesma. As poucas que criei não chegam a fazer número para eu poder acreditar que também consigo.

Como acabei transformando nossos diálogos num meio de vomitar todas as dores que me incomodavam e após tantos anos eu me colocando como a personagem principal de quase tudo que está escrito aqui, parece que esvaziei. E agora? Além de atrasar nossas conversas, transformei nossa companhia em consultório sentimental.

Joguei em você muita coisa que estava agarrada e posso dizer que me sinto melhor – mas que fique bem claro, foram anos pra me recuperar de um tanto de trancos. Não consigo ser feliz em dez lições. Dez mil, talvez.

Quero comentar com você o último filme que vi, uma animação bastante inteligente. E saber se você gostou tanto quanto eu. Quase não tenho saído, e agora com o trabalho que me consome, preciso me desdobrar.

Fui no restaurante que éramos para ter conhecido, adorei. O lugar é bem bonito e a comida não decepciona. O preço é meio desonesto mas os garçons são sorridentes. Precisamos ir qualquer dia.

Seu aniversário está próximo e torço muito para que comemoremos juntos, é algo que não pode deixar de acontecer.

Estou meio lerda para formular ideias, tenho trabalhado, ou melhor, executado um sem número de peças. E como estou novamente fora de minha praia, me perco, morro de medo de esquecer alguma coisa, tenho sonhos com clientes brigando comigo e na verdade eles brigam mesmo. Não sei lidar muito bem com isso, fico um tanto quanto atormentada.

Minha mãe vai tirar férias daqui a alguns dias e sinto que nosso tempo já está perto da data de validade. Todo ano é igual. Alguma coisa entre a gente é frágil, em menos de um mês já estamos nos tropeçando. Depois de novembro, ela volta para as atividades. E eu volto a ser dona do meu espaço.

Além desta carta, iniciei outros textos, e vou deixá-los prontos para não passarmos por isso novamente. Cansei de sentir que estou atrasada.

Miss you,

sábado, 6 de outubro de 2012

Circunstância


É uma tarde preguiçosa. Um dia atípico em que se fica totalmente livre. Você ganhou uma folga ou ficou doente, com o tempo feio que faz lá fora, a sua tarde se resume a você e às quatro paredes do seu quarto.

Você deita na cama com o laptop na barriga, ouve o barulho da chuva e, de vez em quando, olha para a TV ligada e quase esquecida.  Entre uma zapeada nos canais e uma caneca de café, você se pega assistindo à Sessão da Tarde. O filme já começou e você provavelmente já perdeu o primeiro bloco. Mas tudo bem, você sempre quis ver aquele filme, ele não foi nenhum sucesso de bilheteria, não foi pra Cannes, mas você curte aquela atriz, ela tem pernas bonitas, é engraçada e tem ótimas tiradas. E você se toca que nunca assiste à Sessão da Tarde porque é uma pessoa ocupada, seu tempo é curto e, se não fosse a chuva ou a gripe, certamente você estaria na rua fazendo outra coisa.

A história é boba, mas te prende a atenção, te envolve, te arranca uns sorrisos. É, você gosta do que vê. Até que o filme acaba e você pensa “até que foi legal, mas é só mais uma comédia romântica”. E comédias românticas são feitas pra isso, para as tardes livres de solidão. E verdade seja dita: daqui a meia hora, você já esqueceu do que viu.

Sejamos francos, você nunca iria ao cinema pra assistir a um filme desse tipo, não convidaria um amigo para vê-lo, não tiraria o carro da garagem pra isso. É desses filmes que te valem duas horas de entretenimento sem compromisso. E eu me sinto assim, a sua Sessão da Tarde, a sua companhia sem muita expectativa ou grande emoção. Como um desses filmes que não valem o ingresso e, de tempos em tempos, tem reprise garantida. Aí você me assiste de novo, me sorri de novo e me esquece de novo.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Escolhas


Eu estava deitada, meio doente, na cama da minha avó. Acho que eu tinha uns cinco ou seis anos. Ela estava pronta para sair. Passou pelo quarto e disse: tchau, la. Eu olhei para ela, triste e pedi: té, fica, vai. Ela disse: está bem. E ficou. Sou profundamente agradecida a ela por isso até hoje. Às vezes é tão bom ficar.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Desejo inconsciente


O sonho começa comigo mascando chiclete.

Possui sabor de tutti-frutti, daqueles que só havia na minha infância. Ele ocupa toda a minha boca. Com o tempo o sabor original se mistura a tudo que o ato de mastigar sem engolir drena de meu sistema digestivo, e o doce se torna ácido, azedo. A essa altura a goma já havia crescido e ocupado tudo, grudado em meus dentes, em minha língua, no céu da minha boca. Já não é possível me livrar do chiclete com um simples esforço.

Levanto pra ir ao banheiro e separar a goma de minha boca. Não há caminhos até o banheiro, gera um corte de cena e me vejo debruçada na pia, mãos dentro da boca para desgrudar o chiclete, que demora a sair. Quanto mais eu puxo, mais parece que sou eu me despedaçando ali. Já não há mais a cor falsa da goma tutti-frutti. A porta começa a balançar e mal consigo grunhir para avisar que o banheiro está ocupado.

Saio do lavatório ainda com a boca ocupada, sem conseguir me expressar. Um homem grisalho e de suéter, me repreende. “Depois desse tempo todo, você ainda não conseguiu?” Abaixo a cabeça, e ao levantar a vista me deparo com um avião vazio. Poucas pessoas ocupam lugares esparsos. De vez em quando uma se levanta, se dirige para a porta e pula. Ninguém parece se incomodar.

Olho pela janela e vejo apenas o céu matinal, tanto aos lados quanto sob o avião. Pergunto à comissária se ainda é dia. “Ainda é dia, mas não é mais cedo”. Questiono a altura em que nos encontramos. Ela ri. “Altura? Acho que ainda nem saímos do chão”. Respondo com dificuldade, “E esse azul sob a gente? E esse céu?” “Céu? Eu só vejo chão”. E saiu de perto de mim para ir até a porta e pular.

Me sento ao lado de uma senhora idosa. Ela me diz que adora conversar, mas que está cansada e quer apenas ouvir uma canção. Faço sinal negativo com a cabeça; não consigo nem mesmo balbuciar a frase explicando os motivos de não poder mais cantar. Ela se irrita e diz que não canto porque não quero; se levanta, vai até a porta e pula.

Vou até a porta também. Olho para baixo e vejo o mesmo azul sem fim, sem norte, sem referência, sem profundidade. Um homem para a meu lado e diz que é gostoso pular, mas que eu não deveria fazê-lo. Minha vontade é perguntar por que só eu não devo, ou se ninguém deve, ou o que há de gostoso no azul, ou por que não consigo falar. Em vez disso, olho para ele e aponto minha própria boca. “Você pôs na boca o chiclete, não? Então fique firme e continue no avião”.

Com muito esforço, pergunto apenas “Por quê?” Ele me responde: “Se você sair não há mais avião”, e me puxa para trás.

Caio de costas em minha própria cama, suada, com um filete de sol em meu rosto. Ainda é dia, mas não é mais cedo.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Nada


Não, nós não temos nada. Não somos nada um do outro. Semana passada vimos um filme péssimo, um dos piores que eu já vi e a minha vontade no cinema era de deitar a cabeça no seu ombro e viver. Se passassem dois anos, eu não notaria. Não chegamos a sair de mãos dadas do cinema, não temos esse hábito. Nos esbarramos várias vezes, nossos braços se batem de uma forma que se fosse em qualquer outra pessoa, me incomodaria muito. Mas não em você. Você adora.

Nós não somos nada, então não nos beijamos em público o tempo todo, só às vezes. Fomos tomar sorvete e você estava sem barba, nessas horas eu penso que se nós fossemos alguma coisa, eu nunca deixaria que você tirasse a barba, mas não posso dizer mais, senão vou ter que revelar que acho você incrivelmente lindo do outro jeito e eu não quero – ou não posso – me entregar assim.

Quando você disse que gostava de mim – bastante – a primeira coisa que eu senti foi verdade, mas logo veio um medo. Você diz coisas que não fazem o menor sentido e discute assuntos que eu não quero nem ouvir e então eu dou graças a deus por nós não sermos nada. É tão mais fácil. Mas aí acontece de eu não querer dormir sozinha de jeito nenhum e pensar em ligar pra você. Uma parte de mim, confesso, preferia que você não atendesse, mas você atende e vem até aqui e nós assistimos ao nosso preferido juntos. Rimos alto e nos olhamos, procurando a alegria compartilhada. E ela está ali, no sofá, esparramada, à vontade. Meu relógio anda em pulos e só durmo quando amanhece. Interrompo raciocínios com beijos afogados e desesperados e pausados e pesados e saudosos.

Estou cheia de nada, enquanto me preparo para o vazio de amanhã.

sábado, 15 de setembro de 2012

Conselho


Foda.

Foda os seus dias de pessoa vacilante e medrosa. Foda o menino com espinhas que não teve coragem de te namorar. Foda os dias de sol forte na praia e a vontade de tirar o biquíni pra cair nua no mar. Foda o autoritarismo de quem acha que pode mais. Foda o desejo de abandonar o escritório e ir ao cinema comer pipocas.

Foda o relacionamento enrolado tão difícil de cortar. Foda a amizade que é só amizade. Foda o amor que é menos que amor. Foda a noite só em frente à televisão ou na internet fuçando na rede social. Foda o pânico da solidão. Foda o que só se repete. Foda o livro há semanas na cabeceira. Foda a idade, a vaidade e a maldade que às vezes aflora e te deixa sem eira nem beira.

Foda a raiva, a tpm e o rancor. Foda o desejo de dar agora. Foda o sexo em si, a coisa em si, e não saber o que é o ser-para-si. Foda o que não vai para frente, a pedra no meio do caminho, o que ficou para trás, o impasse.

Foda muito. Foda-se.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Constatação


Quando estiver amanhecendo e eu acordar, antes mesmo de a consciência perceber que horas são, preciso me lembrar do seguinte: as flores que nascem nos telhados não estão em seu ambiente natural, mas estão mais próximas do céu. Quando estiver amanhecendo e eu acordar, basta me lembrar que não importa qual dia é hoje. O que importa é que é o princípio de alguma coisa.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

(re)Mar


Tem dias em que penso que preciso mesmo é de um barco.

Quando era criança, costumava me sentar na beira do mar com meu tio e jogar pedras nas águas paradas. Costumava comprar um picolé de morango e um suco sem açúcar, com gelo.

Mais tarde, a vida me afastou do mar e do meu tio, e eu fui boiando por aí. Mas nada parecido com o boiar tranquilo de quem se deita com a barriga para cima, olhos fechados, sorriso tranquilo. Era mais um boiar pré-afogamento, apenas a cabeça fora d’água, braços e pernas se sacudindo para evitar os golpes de mar no rosto.
Tem dias em que penso em trocar tudo por um barco.

No meu boiar atrapalhado consegui juntar uma série de coisas: inseguranças, mágoas, traumas. Consegui também juntar dinheiro. Pouco dinheiro. Mas o suficiente para um barco. Para algum barco.

Comprei um barco. Algum barco. Mas o mar não era mais o mesmo. As águas não estavam mais paradas, as pedras não gostavam mais de quicar e desenhar círculos perfeitos. Ninguém mais me vendia picolés de morango. Ninguém mais me pedia sucos sem açúcar, com gelo.
 Percebi então que mesmo antes desse barco eu já tinha um barco. Eu só não tinha remos, e meu novo barco veio sem remos, e me cansei de ser uma pessoa que tem barcos mas não tem remos.

Pensei então em pular do barco. Dos barcos. Dos dois. No meio do mar que não é mais parado.

E isso seria, talvez, a primeira remada de minha vida. A primeira e a última.

Tem dias em que penso que tenho é barcos demais.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Verdade camuflada


Declaro que faço parte dessa juventude de olhos cegos, mãos atadas e pensamento paralítico. Declaro que, no direito inalienável do meu silêncio, compactuo com todas as atrocidades cometidas diariamente contra toda sorte de pessoas: da fome ao preconceito, do desemprego à depressão. Declaro ainda que, como representante da classe, penso apenas em mim, nas minhas coisas e nos meus objetivos particulares. Desde cedo, aprendi que a felicidade é algo que devo buscar por mim mesmo, algo que não pode ser construído coletivamente.

Prefiro indiscutivelmente ser um indivíduo a ser um cidadão. Esnobo a puta e o mendigo, não os encaro. Percebo que sou frágil; tenho medo, muito medo. Da morte, da solidão e da polícia. Não vou às ruas. Não tenho causas nem preceitos. Não vejo motivo para protestos porque acho que as coisas estão indo sempre muito bem. Declaro que não sou conservador nem liberal, porque pouco sei da política. Como todos os outros, reclamo por entre os dentes, digo que o Brasil não vai pra frente mesmo, que os políticos são todos uns safados. Declaro que acredito na verdade que me chega pela televisão, não preciso de outras fontes.

Minhas músicas são meu combustível diário, coloco os fones nos ouvidos e afasto-me da realidade, crio uma barreira entre mim e o que acontece ao meu lado. Declaro que sou guiado pelo prazer a qualquer custo, a qualquer tempo. Sempre corro, não sei de quê, não sei pra onde. Prefiro não saber o que nos move à frente, ou ainda, o que não nos move. Declaro que faço parte da massa pálida e descafeinada que engrossa as filas de emprego sem se questionar e sem protestar. Somos uns cordeiros, todos. Tenho fé ainda de que a felicidade virá na caixa do Sucrilhos do dia seguinte. Declaro que meu projeto mais ambicioso é erguer minha casa de gramado verde e cercas brancas e construir uma família onde vivamos todos tal e qual o comercial de margarina.

Eu, filho do carbono e do amoníaco, espero sempre. Pelo beijo ou pelo escarro. De minha face, contudo, nenhum músculo se moverá. Declaro, em nome de todos que represento, que optamos por ser assim, que é nossa escolha estar sempre indiferente ao que quer que seja, que temos até um certo orgulho em não sermos mais do que pedaços inertes de plástico.

sábado, 7 de julho de 2012

Âncora transparente


Sempre quis ser feliz.

Ao conhecer a felicidade, passei a defendê-la. Passei a me acostumar com ela e procurá-la onde já a tinha encontrado. Não procurava onde não a conhecia. Eu gastava a felicidade de antes, a que existia em momentos anteriores.
Minha felicidade logo virou a desconfiança de que os demais cobiçavam. Logo virou a suspeita de que não poderia ser feliz, obrigada a me conter. Caso demonstrasse, estaria esnobando. Alertando os ladrões. Não podia sair mais com a minha felicidade. Escondia em casa, atrás dos livros.

Sem felicidade, aprendi a viver com a lembrança dela. Estava quase feliz, remotamente feliz, pois poderia retornar à felicidade de noite. Retornar à felicidade era meu jeito de ser feliz. Ou de parecer feliz durante o dia.

Fiquei assustada quando alguém me falou que eu não era séria, que precisava ser adulta. Tentei ser feliz e não rir. Logo, esquecia que estava feliz e permanecia somente séria.  A concentração para não rir me tirou a vontade de falar.

Complicado o negócio de ser feliz. Desisti, portanto, de minha felicidade para deixar os outros felizes. Abri mão das coisas. Quando um ou outro estava feliz, eu não pensava em minha felicidade. Nem que a tinha escondido para nunca mais rever. Já não me lembrava onde estava: atrás de que livro? Que autor? Qual estante?

Não me constrangia em esperar. Até que bateu um remorso por não ser feliz sozinha, afinal todos são felizes sozinhos. A dependência me doía. Eu tinha que esperar que fossem felizes para me acalmar. Não que tivesse deixado de ser feliz, eu esperava o reconhecimento deles para então perceber que fui feliz.

O mesmo remorso de uma dona-de-casa depois de arrumar a bagunça, sentar na cozinha, descobrir que o minuto de seu sossego é o cigarro e que todo mundo vai esperar a casa limpa, como sempre, e nada será comentado. Porque a casa limpa é invisível, como a felicidade.

A felicidade deles tornou-se minha infelicidade. Fui cobrando a devolução dos dias felizes que dediquei à felicidade deles. Pedindo a devolução das minhas semanas, uma por uma. Não conseguia diferenciar o que era meu do que era deles.

Minha felicidade não era infeliz, mas sem assunto. Confundi sem assunto com infeliz. Não tinha o que contar de mim, só deles. Eu era mais a promessa de felicidade deles do que o meu passado.

Eles foram ficando tristes porque minha felicidade não aparecia. Nem depois. Nem como véspera. Eles não sabiam como devolver minha felicidade. Porque a felicidade deles também era me fazer feliz.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Termostato

O saudável esquecimento da dor parece implicar também, e necessariamente, no esquecimento do prazer. Isso faz surgirem algumas perguntas: será que o esquecimento da dor (de toda dor) é mesmo saudável? E será que o prazer também é esquecido porque sua lembrança provoca o medo de mais dores? Será que quem consegue esquecer a dor teme também o prazer?
Uma espécie de termostato da memória parece ligar a dor e o prazer como sensações que guardam certas semelhanças, seja por efeitos físicos, psíquicos e até de origem supersticiosa ou cultural, não sei. Sei que, por isso, temo esquecer a dor. Temo que, com isso, minha economia mental me proíba de lembrar do prazer.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Chiclete


Na maior parte das vezes é um trecho de música, mas pode ser também fala de filme, verso de poesia ou uma frase solta, sem qualquer sentido aparente – é o que, na falta de nome melhor, chamo de pensamento chicletoso. Ele chega sorrateiro, você nem percebe: quando se dá conta, já está lá, instalado no trapézio da consciência como uma visita na poltrona da sua casa, numa tarde de domingo, grudado aos seus neurônios como chiclete na sola do sapato.

Dia desses, por exemplo, acordei com dor de cabeça, entrei numa ducha fria e, assim que a água bateu na testa, revolvendo ideias há muito adormecidas nas catacumbas da memória, vi-me repetindo, inteirinha, a fala do vilão de um dos piores desenhos animados que já existiram, Thundercats: “Antigos espíritos do mal, transformem essa forma decadente em Mumm-Ra! [Pausa] O de vida eternaaaaa!”. Faz quase quarenta e oito horas que, a cada vinte minutos, mais ou menos, minha vida é interrompida pela evocação maligna de “Mumm-Ra [pausa] o de vida eternaaaa!”. É como um vício: cigarro mental ao qual volto inúmeras vezes, do momento em que abro os olhos até a hora de fechá-los novamente.

Há pensamentos chicletosos que somem depois de um tempo, mas outros ficam para sempre, agarrados aos rabinhos dos neurônios. É o caso, por exemplo, de um trecho da trilha sonora de Pulp Fiction, que contraí ao assistir o filme, numa remota noite e, desde então, vai e volta das trevas para a consciência, da consciência para as trevas, ao seu bel prazer: “Get Down, get down! Jungle booggie. Tananananã!”. (O tananananã é a parte instrumental). Estou cansada. No meio de uma aula importante: “Get Down, get down!”; enquanto espero o ônibus no ponto: “Jungle Booggie!”; com a cabeça no travesseiro: “tananananã”.

De todos os exus mnemônicos com quem convivo, contudo, os piores são as músicas infantis. Minha mãe não sabe, mas no almoço de ontem, enquanto discutíamos uns pormenores sobre o vazamento no box do chuveiro, meu ar de cansaço nada tinha a ver com a preguiça de resolver os perrengues domésticos: era o resultado de uma manhã inteira ouvindo, ininterruptamente, “serra, serra, serrador, serra o papo do vovô”, no maldito rádio instalado dentro do meu cérebro. “Atirei o pau no gato” eu canto tanto, mas tanto, que já não me basta o português. “Atiré el palo en el gato…” ou “I threw the stick on the cat” são a música de fundo de boa parte dos momentos que passo acordada.

Outro dia, tive a mórbida alegria de descobrir que meu ídolo, Julio Cortázar, também sofria de acessos semelhantes. Numa crônica do livro Um tal Lucas, o escritor argentino conta que, no meio de um banho, pegou-se dizendo, com “visível prazer vingativo: Now shut up your distasteful Adberkunkus!” (Agora cale-se, seu intragável Adberkunkus). Só no fim da chuveirada, depois de repetir a admoestação várias vezes, foi se perguntar quem, ou o que, seria um Adberkunkus.
A alegria por saber que minha loucura era compartilhada pelo ilustre escritor, contudo, durou pouco: mal fechei o livro e abri a geladeira para pegar uma coca, me vi gritando, mentalmente: “Agora cale-se, seu intragável Adberkunkus!” – em português, inglês e espanhol.

Já desisti de me curar. Encaro como uma doença crônica, que vem e vai. O negócio é tocar pra frente – “get down, get down!” -, aproveitar bem os intervalos – “serra o papo do vovô” – e tentar ser feliz assim mesmo – “jungle boogie”–, sabendo que certas coisas não se calam, por mais intragáveis que sejam, e por mais que imploremos em todas as línguas, conhecidas ou inventadas – “tananananã.”

Confissão

Hoje olhei longamente uma frase sua. Só olhei. Ela não dizia nada de importante, mas ela era você, cada palavra um pedaço seu, uma coisa que saiu da sua cabeça, das suas mãos, da sua vida. Eu olhei tanto pra essa sua frase que quase me confundi toda dentro dela, mas você não sabe disso, você não me conhece. Pensei em escrever algo. Não adiantaria nada. Porque você não me conhece e uma frase minha precisaria dizer tanta coisa que não caberia numa frase, nem em muitas.

domingo, 17 de junho de 2012

Teatro

Pode ficar calmo, dessa vez estou mais dengo do que dentes. Melhor se descreve o que se tem perto dos olhos (façamos com os sentimentos), de longe, inventa-se mais (bom para literatura, não para viver cotidianamente com saúde). Posso rir das gaiolas, porque me fiz em uma delas. Nós dois somos falatório. Nossos monólogos, coletivos. De certo modo, estou dançando com você a valsa das pegações. Já fiz das tripas coração, agora estou aprendendo a pensar. Sei que estou em guerra, e vencendo, porque pela via do afeto (esta frase é todo o meu currículo arrogante). Mas nem sei se sou uma muher, ou se só um corpo de neblina. Chegou o inverno, mas o dia sempre amanhece, uma espécie de ressurreição até para os vampiros.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Agelastos

Tenho medo de sapo; de raio; de guerra; do bolo queimar; de contemporizar demais; da minha raiva; da saudade. Mas do que eu tenho mais medo, mais medo mesmo, é de uma coisa que eu acabei de aprender com o Milan Kundera: os agelastos, aqueles que não sabem, não querem e não gostam de rir.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Dia doze

Erros de português que adoro cometer: colocar alguma coisa "de assim"; isso é só "entre eu e você"; vou assistir "o" jogo; quero ir "no" banheiro; prefiro isso "do que" aquilo; o peixe tem "espinho" e o melhor de todos, que deveria ser considerado correto, em nome do amor: "fica comigo".

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Valores

Imagine que tenho uma mala muito pesada com um milhão de moedas de ouro. As alças ficam penduradas no meu pescoço, me forçando a cabeça para baixo, retesando os músculos do olhar pra frente.
Vez ou outra, uma pessoa da rua passa e tenta me roubar. Mas, por mais que esteja tão pesado e doendo e estragando a minha coluna, luto até a morte pra proteger a tal da mala. Automaticamente me atiro contra o chão, como se protegesse um filho das balas. São terríveis esses quilos centralizados no ponto mais fraco do meu corpo, mas pra violência a gente não entrega nem os fardos.
Também, às vezes, uma pessoa da rua se oferece pra carregar a mala pra mim. Ou pra guardar em sua casa. Ou pra dividir o peso ao estilo “uma mão em cada alça”. Também não consigo entregar meu arqueamento e tamanho para essas pessoas. O amor gentil nunca me conquistou. Gentileza é coisa pra quem nunca será íntimo. Solidariedade é coisa pra campanha política. Felicidade é pra quem se conforma em ficar num lugar só porque está bom.
Mas muito de vez em quando, como acontece, aparece uma pessoa que não me pede nada e pra quem eu tenho vontade de entregar cada moeda da minha mala com um milhão de moedas de ouro. Tome, leve, gaste, use, encha a sua banheira com elas e depois me mande uma foto.
Eu sou uma mendiga ao contrário.
Não são por essas coisas que não se ama. Não são por essas coisas que se ama. Essas são apenas as coisas sobre as quais conseguimos falar na nossa ânsia de ocupar a cabeça enquanto nos encaramos um pouco assustados.
A verdade é que, no meio da multidão, estamos carregando nossas malas pesadas de riquezas e belezas e sentimentos. E uma hora, só porque acontece e não se pode explicar sem parecer ingênuo e arrogante, escolhemos uma pessoa que nos leve.